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sexta-feira, 9 de julho de 2021

Nordeste é o semiárido onde mais chove no mundo

Nordeste é o semiárido onde mais chove no mundo

É o que revela o levantamento do pesquisador francês Julien Burte, que dedicou quase metade do tempo de sua vida aos estudos da região semiárida do Ceará

Em 1998, um jovem francês de 24 anos chegava ao Ceará sem imaginar que sua vida teria, para sempre, laços com o Sertão cearense. O interesse pela região nasceu três anos antes, em 1995, quando Julien Burte ainda era um estudante de graduação, e participou de uma palestra sobre a região.

Julien Burte, pesquisador francês que por décadas pesquisou os sertões do Ceará(Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDO)
Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDOJulien Burte, pesquisador francês que por décadas pesquisou os sertões do Ceará

Empolgado, o plano inicial seria realizar o estágio de graduação no Ceará. Na época não foi possível. Três anos depois, um projeto entre o governo francês, a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e a Prefeitura de Quixeramobim tornou o projeto realidade. A iniciativa permitia que jovens franceses fossem a países em desenvolvimento como forma de cumprirem serviço militar.

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Sem falar português e vivendo em uma conjuntura cultural completamente distinta, Julien chegou ao Ceará em janeiro de 1998. Instalou-se no distrito de São Miguel, em Quixeramobim.


Na trajetória, Burte atrelou pesquisa, ensino e desenvolvimento. Com objetivos claros de compreender e melhorar a situação da vida daqueles que necessitam ainda mais da boa administração dos recursos hídricos para sobrevirem de maneira digna.

Ajudou também a formular o Projeto Sertões, que reúne a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e o Centro Francês de Pesquisa Agrícola para o Desenvolvimento (Cirad). A proposta é capacitar agricultores do semiárido cearense para fazer o melhor uso possível da escassa água disponível.

Hoje, pesquisador do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad), Burte prepara-se para trilhar novos caminhos longe do Ceará. Em conversa com O POVO, ele conta a história com o Estado.

Julien Burte, pesquisador francês, indica no mapa um dos lugares estudados no sertão cearense (Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDO)
Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDOJulien Burte, pesquisador francês, indica no mapa um dos lugares estudados no sertão cearense

O POVO - Como nasceu a sua relação com o Ceará?

Julien Burte - Essa é uma história antiga, começou em 1995. Quando eu ainda me graduava, um professor fez uma palestra sobre o Ceará. Eu me empolguei e decidi que ia fazer meu estágio de graduação aqui. Acabou não rolando, mas depois a gente montou um projeto com o governo francês, a Uece e a Prefeitura de Quixeramobim para eu vir fazer a minha cooperação militar ao invés de fazer o serviço militar. Lá você tem a possibilidade de ir até um país em desenvolvimento, e assim começou minha relação com o Ceará. Em janeiro de 1998, eu fui direto para Quixeramobim. Aliás, para o distrito de São Miguel, em Quixeramobim, sem falar nada de português. Eu vim para trabalhar e apoiar o desenvolvimento da região, que, na época, era a mais pobre de Quixeramobim. 

O POVO - Quais foram as suas primeiras percepções ao chegar em um continente diferente e em um país com uma língua também diferente? Como foi o processo de adaptação?

Burte - Para mim, foi uma experiência extraordinária. Claro, um ambiente muito diferente, mas muito acolhedor, com pessoas que enfrentam muitas dificuldades, principalmente em 1998, que tivemos uma forte seca. O pessoal tinha a vida muito difícil, mas eram pessoas extraordinárias. É uma região linda. Tenho lembranças incríveis e por isso que estou aqui ainda. Se não tivesse gostado, não teria ficado acompanhando.

Julien Burte, pesquisador francês(Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDO)
Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDOJulien Burte, pesquisador francês

O POVO - O processo de adaptação foi muito difícil?

Burte - Na verdade, foi muito fácil. Primeiro, o francês e o português são dois idiomas muito parecidos. Eu fui super bem acolhido. Na comunidade em que eu cheguei, faltava energia por vários dias seguidos, só se chegava por um carroçal, não tinha telefone, não tinha como ligar para o estrangeiro, não era a situação de hoje. Mesmo assim, não foi difícil. Eu aprendi com a imersão total, ninguém falava nem inglês, nem francês, então aprendi a falar rápido. Eu amei muito essa região, me senti muito bem nesse processo de desenvolvimento.

O POVO - São mais de 20 anos ligado ao Ceará. Como foi a construção das suas relações com Quixeramobim?

Burte - Essa trajetória tem como diferencial o fato de que, desde o início, agregamos pesquisa, ensino e desenvolvimento. Quando chegamos a Quixeramobim, começamos a receber estudantes de graduação de mestrado para estudarem o solo, a água e o plantio. Ao mesmo tempo, a gente fazia apoio técnico aos agricultores, já que não existia nenhuma estrutura para isso. Éramos jovens engenheiros, agrônomos, nem eu sabia muita coisa da realidade do sertão. Mas, ao mesmo tempo, a gente tinha o conhecimento técnico. Logo veio o apoio da Uece e da Funceme também, além do apoio muito forte da Prefeitura nesse processo de implementar a rede de monitoramento das águas e do solo, para que se pudesse desenhar um caminho sustentável.

Julien Burte, pesquisador francês(Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDO)
Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDOJulien Burte, pesquisador francês

O POVO - Como ocorreu o desenvolvimento das pesquisas?

Burte - Fui professor da (Universidade) Federal e pesquisador aqui. Assim, fomos desenvolvendo essas ações de pesquisa, mas sempre uma pesquisa aplicada, e é isso que construímos com a Funceme, que é um instituto de pesquisa aplicada. Ela faz pesquisas para trazer apoio das políticas públicas do Estado. Nós tivemos esse mesmo olhar de desenvolver as pesquisas e ter modelos, fazendo esse confronto entre os conceitos teóricos e a realidade do campo para, dessa forma, construir as trajetórias. A Funceme se apropriou disso e começou a apoiar e participar, até que virou um observatório homem e meio ambiente, uma área de referência que já acompanha há mais de 20 anos.

O POVO - As pesquisas possuíam alguma área específica?

Burte - Dentro dessa área, foram feitas pesquisas, inicialmente, no campo da engenharia e depois nas ciências sociais, buscando entender a organização dos produtores, como, por exemplo, por que fazem o uso do agrotóxico. Buscamos compreender os pontos chave para entender a gestão da água e ajudar a elaborar as ferramentas e políticas que funcionam. Chegou a um ponto em que tanto o nosso conhecimento tinha progredido quanto a situação do Estado tinha se degradado em termos de gestão da água. A seca, claro, acelerou esse processo de degradação. Mas, ela só revelou um processo que já estava em andamento, que é o fato de não ter a gestão dos pequenos recursos hídricos locais, só se tem do microssistema. Essa falta de articulação entre o sistema oficial e o que acontece no local coloca em perigo todo o abastecimento de água. Nós chegamos à conclusão de que o momento era de avançar para uma nova etapa, de propor com base nesse conhecimento e da situação de tentar colocar pesquisas para apoiar e tentar achar soluções concretas, em uma escala já maior.

 

O POVO - Dentro da análise feita durante os últimos anos e levando em consideração outras regiões do semiárido, o Ceará possui alguma característica específica em relação a outras áreas semelhantes no mundo?

Burte - Eu já trabalhei em três grandes áreas semiáridas. Aqui no Nordeste, na Tunísia e no Marrocos. São dois os grandes diferenciais do sertão nordestino. O primeiro ponto é que aqui é o semiárido que mais chove no mundo. Isso é uma característica peculiar. Aqui pode chover até 800 milímetros, mas é semiárido, porque a evaporação por causa da temperatura e do solo é gigantesca. Na Tunísia, por exemplo, registram 250 milímetros. Então, lá você não tem como armazenar água da chuva durante a estação chuvosa, do mesmo jeito que se faz aqui. O segundo aspecto é que o semiárido daqui é muito povoado. Como chove muito, se você consegue armazenar água, é possível viver.

O POVO - O fato de ter muitas pessoas vivendo no semiárido cearense potencializa os problemas da falta de água?

Burte - Então, existe uma população densa em relação a outras áreas do semiárido no mundo. Isso traz consequências, dificuldades e responsabilidades, porque não dá para deixar uma população de centenas de milhares de pessoas sem água. Se faltar água, é complicado resolver o problema imediatamente. Na Tunísia, quando falta água em uma região, atinge algumas milhares de pessoas. Aqui no Banabuiú, imediatamente, são 200 mil (região abastecida pelo terceiro maior açude do Ceará, e o mais seco atualmente). Então, isso obriga o gestor a tentar construir os meios de antecipação, essa gestão proativa da escassez. O que acontece de certa forma, ao nível local é absolutamente o deserto. Não tem nenhuma gestão proativa. Apesar de toda a boa vontade da Cogerh (Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos, do Governo do Estado), ela não tem como chegar lá, porque ela não foi desenhada para isso. O grande desafio desse projeto (Sertões) é tentar endereçar essa questão da gestão local da água. Propondo ao Estado soluções concretas em termos de regras, de leis, de organização, articulação, em ter as instituições, os comitês de bacias, as prefeituras, as comunidades locais, a própria Funceme. É um grande desafio, aqui o desafio é maior que em certas regiões semiáridas que são menos povoadas, porque tem muita gente. 

Açude Banabuiú, terceiro maior do Ceará e o mais importante do Sertão Central. Atualmente é o mais seco entre os grandes reservatórios(Foto: AURELIO ALVES COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDO)
Foto: AURELIO ALVES COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDOAçude Banabuiú, terceiro maior do Ceará e o mais importante do Sertão Central. Atualmente é o mais seco entre os grandes reservatórios

O POVO - Os projetos tinham uma ideia de ciências naturais abordando a parte climatológica. Entretanto, ao longo do processo, vemos o predomínio dessa questão social por, justamente, ter sido encontrada uma região muito povoada. Fica algum fruto prático para a população após tantos anos de pesquisa?

Burte - Eu espero que tenha ficado. As melhores pessoas para responder isso são os agricultores e a própria prefeitura de Quixeramobim. Um dos agricultores com quem trabalhamos, que já conheço há 20 anos, diz que o desenvolvimento sempre traz coisas boas e coisas ruins. É um processo que não para, sempre temos de tentar trazer o lado bom, minimizando os impactos causados.

O POVO - É possível observar mudanças na maneira de administrar os recursos hídricos durante os últimos anos?

Burte - Eu vejo que o abastecimento de água na região mudou. Depois desse trabalho que está sendo conduzido com a Funceme há 20 anos, os aquíferos, onde estão os pequenos lençóis, hoje são verdadeiras alternativas e são bem mais explorados do que antes. Eu me lembro que, em 1998, ninguém acreditava nisso. Foi uma coisa que esbarrou em todo mundo para fazermos os primeiros testes. Hoje, não se discute mais o potencial desses pequenos lençóis de contribuírem de forma decisiva para o abastecimento humano, doméstico e animal, e para a pequena irrigação. Ao mesmo tempo, como não foi implantada gestão, acaba se usando esses recursos de forma exagerada. Tem gente derramando agrotóxico dentro, não dá para ter desenvolvimento sem gestão. Um estudo recente da Funceme mostra que há cerca de 100 mil açudes no Estado. Sabemos do problema, porque a água é um recurso essencial e, ao mesmo tempo, frágil. Então, o que nós mostramos é que, ao longo desses anos, os investimentos de infraestrutura têm impactos positivos, melhoram a vida das pessoas.

Julien Burte, pesquisador francês que se tornou especialista no semiárido cearense(Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDO)
Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDOJulien Burte, pesquisador francês que se tornou especialista no semiárido cearense

O POVO - Esses resultados serão apresentados internacionalmente para que as pessoas tenham conhecimento?

Burte - Da mesma maneira que a gente teve essa visão larga, queremos aproximar a pesquisa de um mundo fora do ambiente acadêmico. Claro que as publicações científicas são feitas, apresentadas em congresso, revista etc. Mas são pesquisas e resultados que são difíceis de penetrar para aqueles que não são pesquisadores. Precisa de uma bagagem teórica para se compreender bem isso. Fazemos esse trabalho não só de pesquisa, mas também de traduzir esse resultado em relatórios técnicos e em produtos audiovisuais, cursos de mestrado à distância. Desde que conheci a Funceme, ela compartilha todos os seus dados para todo mundo, tudo está acessível, não tem restrição, pelo contrário, queremos mostrar. Então, são produtos técnicos como mapas que são usados como base de referência, bancos de dados. Como por exemplo o trabalho de sistematização dos dados existentes sobre água, abastecimento, falta de carro-pipa e cisternas. Informação que não existia, era pulverizada. Temos projetos bastante operacionais, mesmo os que estão ligados à pesquisa.

O POVO - Quais seriam esses projetos?

Burte - Tenho dois exemplos interessantes. O primeiro é o monitoramento da seca, que foi implantado pela Funceme e hoje está praticamente em todo Brasil, uma ferramenta de apoio internacional para tomada de decisões de políticas públicas, que aponta onde é o perigo e como classificar as regiões. Os nossos dois institutos estão numa fase de implementação de um aplicativo. Um grande problema do Interior é que há muita dificuldade em ter acesso à informação. Então, como a Funceme já tem um sistema de monitoramento da chuva, no qual a população pode ligar em um 0800, a Funceme já está em um estágio diferenciado por ter essa ligação direta com o campo. Nós queremos tentar enfrentar esse problema de escassez de informação sobre os açudes e sobre o plantio com apoio de um aplicativo que já foi desenvolvido, para permitir ao agricultor digitar algumas informações, direcionadas à Funceme, que, em troca, transfere informações de volta para ele. A política pública está aqui, e não chega porque está faltando informação. O último ponto que eu queria dizer é que sabemos que precisamos trazer mais pesquisa e mais ciência para a decisão pública. No momento atual, onde tem fake news demais, e muita gente até acredita que a Terra é plana, nós temos de trazer a ciência para esclarecer as decisões dos gestores públicos.

Vegetação seca no Sertão Central cearense(Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDO)
Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDOVegetação seca no Sertão Central cearense

O POVO - Podemos dizer que o caminho para o sucesso das ações é ter êxito em levar a informação para o sertão e conseguir ampliar a administração dos recursos hídricos, para entender qual é a situação do Estado?

Burte - O Estado já fez muita coisa, hoje tem uma macroinfraestrutura hídrica de peso, que está sendo muito bem gerenciada pela Cogerh. Do ponto de vista técnico, é uma gestão participativa, que não é perfeita, mas que funciona bem. Entendo que o principal desafio é trabalhar essa articulação a nível local. Como engajar as prefeituras nos seus recursos hídricos, porque hoje não se tem nem papel legal, não existe no sistema, não tem responsabilidade. Tudo fica para o Estado, mas ele não tem perna suficiente para isso. O desafio é esse, para fazer isso a gente precisa envolver as comunidades. Precisamos parar de considerá-los como gente que deveria apenas receber as coisas, eles são nossos parceiros. Não é só mandar informação para eles, mas eles mandarem informação para nós. É preciso construir esse ciclo, essa articulação com o meio rural, que não está como centro da atenção e da ação. Não é só mandar a infraestrutura, mas construir com as comunidades o futuro que eles querem ter, e que podem ter, levando em consideração as questões regionais. Eles precisam ser os atores número um da dinâmica do território. No final das contas a chave é essa, conseguir fazer essa articulação e empoderar os atores locais do seu próprio futuro, sem tentar decidir pelo futuro deles.

O POVO - Qual é o sentimento de passar por essa experiência de pesquisa e vida no Ceará?

Burte - Eu era muito curioso, descobri uma nova maneira de viver, vi dificuldades que as pessoas enfrentavam aqui, que não tinham nada a ver com o que se enfrenta na França. Na época, tínhamos muitos trabalhos em parceria. Eu me lembro desse sentimento de me sentir útil. Os agricultores sempre me perguntavam: "Venha cá, me diz o que você fez na França para te mandarem pra cá. Você matou alguém?" Eles não conseguiam entender que, pra mim, era extraordinário ter essa experiência, eu tinha a impressão de ser muito mais útil trabalhando a questão da água aqui, do que na França, onde já tinha tudo. Então, não foi difícil, tenho excelentes lembranças.

 Projeto Sertões: parceria com a França busca dar autonomia a agricultores 

Firmado em fevereiro deste ano, o Projeto Sertões reúne a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e o Centro Francês de Pesquisa Agrícola para o Desenvolvimento (Cirad), com objetivo de capacitar agricultores do semiárido cearense para fazer o melhor uso possível da escassa água disponível. O projeto tem financiamento da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). Um dos líderes do projeto é o pesquisador do Cirad Julien Burte, francês que chegou ao Ceará em 1998 e se tornou especialista em semiárido.

Inicialmente, o projeto terá duração até 2023, e será dividido em três etapas. Na primeira delas, que está sendo realizada neste ano, é feito um diagnóstico e uma análise dos territórios. São levadas em consideração as questões hídricas, energéticas e as políticas públicas específicas para cada localidade. Inicialmente, os municípios de Quixeramobim e Piquet Carneiro estão em foco no projeto.

Galhos secos e queimados no Sertão Central cearense(Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDO)
Foto: FÁBIO LIMA COM INTERVENÇÃO DE ISAC BERNARDOGalhos secos e queimados no Sertão Central cearense

Para 2022, a expectativa é a possibilidade de implementação de um sistema de inteligência territorial, que articule as informações produzidas em diversos locais e as partilhe, possibilitando que os moradores do próprio território tenham a capacidade de melhorar a tomada de decisões.

Por fim, Julien acredita que o projeto pode chegar a 2023 com uma base de levantamentos que permitam colocar em prática um modelo de gestão das pequenas fontes hídricas do Estado.

"Esse projeto também ambiciona, concretamente, enfrentar essa questão da gestão local da água, e tentar construir um modelo de como poderia ser a política a nível estadual para articular a gestão dos pequenos recursos hídricos com a do macrossistema (hídrico), que hoje já é operacional", explica Julien.

O valor investido no projeto é de 950 mil euros, algo em torno de R$ 6,2 milhões, e será implementado pela ferramenta “Facilité 2050” da AFD. Esse tipo de apoio é destinado a cerca de 30 países, e visa a colaborar na construção de trajetórias de desenvolvimentos resilientes e de baixo carbono, compatíveis com os objetivos do Acordo de Paris. O Projeto Sertões é o primeiro estudo financiado pelo programa no Brasil.

Julien destaca que o Sertões tem objetivo de garantir a resiliência do território, no ponto de vista hídrico, além de buscar a sustentabilidade rural, minimizando impactos ambientais e climáticos. De acordo com o pesquisador, o projeto tem um viés de desenvolvimento sustentável de baixo carbono, e busca minimizar o uso de agrotóxicos e de insumos externos.

Além da sustentabilidade, as ações buscam trazer mais autonomia para o homem do campo. O pesquisador francês relata que o projeto tem o objetivo de quebrar a relação vertical existente entre agentes públicos e sertanejos.

"Queremos, através da própria metodologia do projeto, não construir as coisas de cima para baixo. Encontrar soluções aos desafios da gestão da água para ser construído lá. Nós vamos simplesmente engajar um trabalho junto com agricultores e moradores das regiões para saber quais são os desafios e as soluções", explica.

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Futuramente, com os desafios traçados e compreendidos, os pesquisadores almejam que o homem do Sertão possa gerenciar os seus recursos praticamente sozinho. "Nós queremos apoiar os agricultores para que eles mesmos possam gerenciar seus recursos, e isso vai trazer sustentabilidade em nível estadual como um todo. Não queremos que o Estado vá fazer para ele."


Questionado se a apropriação dos recursos hídricos do Estado, assim como o pleno conhecimento de gestão hídrica, ainda era uma realidade muito distante dos sertanejos cearenses, Julien conta uma história de quando esteve no campo. "Tem um agricultor que é muito pobre, mas tem uma área no pé da serra e tem uma das poucas fontes que tem lá. É uma fonte muito pequenininha, mas ele fala dela assim: 'Ela tem ciência, tem de cuidar dela, se não ela vai embora'. Você vê que a pessoa tem um nível de interação com a natureza em que vive, que nós não temos nada para ensinar a ele sobre isso."

Julien explica que o projeto quer oferecer melhores condições para essas pessoas, já que, muitas vezes, vivem em áreas vulneráveis, de muita carência. O pesquisador destaca que o caminho rumo à sustentabilidade é longo, mas enxerga boas possibilidades no Brasil. Para ele, a ciência é o caminho para contornar as adversidades do percurso.

"Temos aqui as condições de andar rápido. A caminhada não é fácil, o Brasil é um país poderoso, com muitas potencialidades, mas vemos que, de vez em quando, a caminhada tem um buraco e caímos dentro, e depois temos de sair do buraco. Se tivesse contornado, teria ido mais rápido."

Créditos

  • EdiçãoÉrico Firmo e Fátima Sudário Edição de arte
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